top of page
Buscar

Brasil: Arqueologias da Resistência na 61ª Bienal de Veneza

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Em 2026, Bienal de Veneza abriu em meio a protestos, pedidos de boicote e fechamentos temporários de pavilhões.


foto: Denise Andrade
foto: Denise Andrade

"Nesse contexto carregado, o Brasil se destaca com Comigo ninguém pode, com curadoria de Diane Lima, reunindo Adriana Varejão e Rosana Paulino em um poderoso diálogo sobre memória, proteção e resistência.



Dois anos depois de Adriano Pedrosa fazer história como o primeiro curador latino-americano a dirigir a Bienal de Veneza, o Brasil retorna ao Arsenale com uma presença mais fragmentada, espiritual e politicamente carregada. Entre os Giardini, o Arsenale e as exposições paralelas espalhadas por Veneza, artistas brasileiros abordam temas como memória, violência colonial, ancestralidade, espiritualidade e processos de transformação.


Em uma Bienal assombrada por questões de guerra, deslocamento e reparação histórica — e marcada desde sua abertura por tensões geopolíticas, protestos e pela renúncia do júri internacional presidido pela curadora brasileira Solange Farkas — o Brasil aparece menos como uma imagem nacional unificada e mais como uma constelação de tensões, feridas e reinvenções.



A 61ª Exposição Internacional de Arte, intitulada In Minor Keys, acontece em circunstâncias excepcionais. Concebida por Koyo Kouoh antes de sua morte repentina em 2025, a Bienal propõe uma leitura mais íntima e sensível do mundo, atenta ao silêncio, à fragilidade, ao ritual e às formas não hegemônicas de conhecimento.


No entanto, os dias de abertura foram marcados por fortes tensões geopolíticas que transformaram Veneza em um espaço de confronto entre a arte e os conflitos globais contemporâneos. Ativistas, artistas e curadores pediram o fechamento do pavilhão israelense e questionaram a participação da Rússia e até mesmo dos Estados Unidos diante do cenário político atual.


Durante os dias de pré-abertura, protestos organizados por grupos como a Art Not Genocide Alliance cercaram o pavilhão israelense, enquanto o coletivo Pussy Riot promoveu ações contra o retorno da Rússia à Bienal após anos de ausência desde a invasão da Ucrânia.


Ao menos 27 dos 100 pavilhões nacionais chegaram a permanecer parcial ou totalmente fechados em uma das manhãs da prévia da Bienal. Alguns artistas cobriram ou alteraram suas obras em gestos de solidariedade. Entre os países afetados por greves simbólicas ou fechamentos temporários estavam Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Japão, Coreia do Sul, Líbano, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal, Espanha e Turquia, entre outros.


Nesse clima de incerteza e fratura política, In Minor Keys torna-se algo paradoxal: uma Bienal simultaneamente marcada pela instabilidade e por uma profunda intensidade artística.

Dentro dessa atmosfera carregada, os artistas brasileiros apresentados em Veneza não evitam essas tensões — eles atravessam essas tensões, transformando memória, espiritualidade, ritual e violência histórica em novas formas de resistência visual e poética.


Pavilhão Nacional: Comigo Ninguém Pode, a arqueologia botânica do Brasil



No Pavilhão do Brasil, a curadora Diane Lima apresenta Comigo ninguém pode, reunindo Adriana Varejão e Rosana Paulino em um diálogo profundo. O título deriva da planta Dieffenbachia, popularmente conhecida no Brasil como “comigo-ninguém-pode”, ativando significados ambíguos de proteção, toxicidade e resistência.


A aproximação entre as duas artistas estabelece um poderoso diálogo entre práticas fundamentais para compreender a formação colonial do Brasil, suas violências e suas estruturas persistentes.


Em vez de funcionar como uma estrutura modernista neutra, o pavilhão é transformado em uma experiência espacial fragmentada, onde ruínas, arquiteturas inacabadas, vigas expostas e estruturas semelhantes a escadas delineiam um território marcado pela instabilidade das fundações históricas do Brasil.


A exposição começa com o teto de azulejos rachados concebido por Adriana Varejão, questionando imediatamente a própria estrutura de um país cujos restos parecem ameaçar desabar sobre nós. Algumas paredes surgem interrompidas, estruturas parcialmente colapsadas, enquanto passagens suspensas e formas sugerem movimento, transição e possibilidade de reconstrução.


Essa intervenção cria a sensação de atravessar um país em permanente reconstrução — uma nação simultaneamente assombrada pela violência colonial e impulsionada pelo desejo contínuo de se reinventar.


Nesse sentido, o pavilhão deixa de funcionar como uma representação estável da identidade nacional e passa a existir como um território vivo de tensão, memória e transformação."


Leia o artigo original em inglês e completo no link: Sophie Su Art Advisory




 
 
 

Comentários


  • Facebook
  • Instagram
© Arte em Pauta - Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução desde que citada a fonte.
bottom of page